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Sacrário jesuítico de quase 300 anos será devolvido a Viçosa do Ceará

A peça é atribuída ao contexto da produção artística desenvolvida na antiga missão jesuítica da Ibiapaba.
  • Categoria: Ibiapaba
  • Publicação: 25/09/2026 09:57
  • Autor: Diário Do Nordeste

Um sacrário de madeira produzido no século XVIII, associado à antiga missão jesuítica da Ibiapaba, deverá retornar à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, em Viçosa do Ceará, onde foi originalmente instalado.

A peça, que tem quase 300 anos, está atualmente sob a guarda do Museu Diocesano Dom José, em Sobral, e a transferência vem sendo tratada entre as dioceses de Sobral e Tianguá, com participação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O retorno, contudo, está condicionado à restauração do conjunto. Segundo José Luiz Lira, diretor do Museu Diocesano Dom José, a peça não deve ser simplesmente retirada do museu e levada para Viçosa. O entendimento firmado entre as instituições prevê que o sacrário seja restaurado antes de deixar Sobral.

“Não há oposição realmente quanto ao retorno dela ou quanto a ela ser colocada no local de origem. Contudo, há essas exigências, inclusive sob orientação de que ela fosse restaurada”, explica Lira.

Segundo ele, a restauração é necessária porque o conjunto, feito de madeira maciça, nunca passou por um processo completo de recuperação desde retirada da igreja, há mais de sete décadas. “Voltar simplesmente por voltar, sem uma recuperação completa, não faz sentido. Nós estamos destruindo a peça”, afirma o gestor.

Peça foi retirada durante reforma na década de 1950

Segundo historiadores da região de Ibiapaba, o sacrário teve provável confecção na década de 1730. A retirada ocorreu durante uma reforma realizada na Igreja Matriz de Viçosa do Ceará na década de 1950, antes do Concílio Vaticano II — realizado entre 1962 e 1965, o encontro religioso promoveu mudanças na Igreja Católica e na liturgia.

Conforme o relato do diretor do Museu Diocesano Dom José, baseado em diferentes histórias da época, o então pároco decidiu modificar o altar e retirou o antigo retábulo, que incluía o sacrário.

A peça ficou fora do altar e, posteriormente, a informação teria chegado ao conhecimento de Dom José Tupinambá da Frota, primeiro bispo da Diocese de Sobral. De acordo com Lira, o bispo entrou em contato com o responsável pela igreja e soube que o conjunto não seria reinstalado.

40 mil itens fazem parte da lista de peças históricas do do Museu Diocesano Dom José. O espaço conta com um dos maiores acervos de arte sacra do País.

Diante disso, Dom José teria determinou que a peça fosse levada para o Museu Diocesano Dom José, onde permanece desde então. “Não houve imposição do bispo. A peça foi doada legalmente e isso consta no livro de tombo”, afirma Lira.

O diretor ressalta que, na avaliação do museu, a retirada naquele momento contribuiu para a preservação do conjunto. Segundo ele, a peça poderia ter sido perdida caso permanecesse fora do altar e sem uma destinação adequada.

Como é o sacrário?

Conforme dados de catalogação do Museu Diocesano Dom José, o tabernáculo é confeccionado em cedro policromado. A peça mede 94 centímetros de altura e 1,84 metro de comprimento.

O sacrário é formado por um elaborado conjunto de madeira entalhada, com ornamentação típica da arte sacra colonial. A estrutura apresenta colunas, frisos e elementos decorativos esculpidos, compondo um retábulo.

Apesar do desgaste provocado pelo tempo, ainda é possível observar vestígios de várias cores, especialmente nas áreas em que permanecem pigmentos dourados, brancos e avermelhados.

Na parte central do conjunto está o elemento de maior destaque: uma composição escultórica com a representação de Cristo ressuscitado, cercado por figuras de anjos. A cena é emoldurada por ornamentos de inspiração vegetal e apresenta detalhes em relevo, evidenciando o trabalho de entalhe realizado diretamente na madeira.

Nas laterais, o conjunto é marcado por colunas ornamentadas e painéis decorativos com formas curvas, folhas e frutos. A parte superior possui uma composição arquitetônica escalonada, com frisos, molduras e ornamentos que conferem ao conjunto uma aparência monumental.

Atualmente, a obra possui áreas com perda ou desgaste da camada de pintura, fissuras, manchas e partes da madeira que apresentam deterioração.

Segundo o pesquisador João Bosco Gaspar, especialista em História, Cultura e Patrimônio da região de Ibiapaba, a importância do sacrário está ligada à participação das populações indígenas na produção da peça. Sob a coordenação dos padres da Companhia de Jesus, os nativos da região teriam contribuído não apenas com a matéria-prima e a força de trabalho, mas também com a elaboração dos elementos artísticos.

Para Gaspar, o trabalho conjunto entre jesuítas e indígenas conferiu ao objeto uma “assinatura estética única”, transformando-o em um “testemunho vivo das primeiras dinâmicas sociais e culturais estabelecidas nos altiplanos cearenses”.

O pesquisador também destaca a singularidade artística do conjunto no patrimônio brasileiro. Segundo ele, o sacrário é uma peça “inteiramente única em todo o território brasileiro”, sem paralelo, inclusive, em regiões reconhecidas pela tradição barroca colonial, como Minas Gerais.

A combinação de elementos da estética jesuítica com a interpretação artística indígena e o uso de materiais adaptados à realidade da serra da Ibiapaba, afirma, fez do objeto um “monumento artístico inigualável”, com relevância não apenas religiosa, mas também histórica e cultural.

Retorno é reivindicado por Viçosa há anos

Em Viçosa do Ceará, a volta do sacrário é reivindicada há pelo menos uma década. Gilton Barreto, secretário de Turismo e Cultura do município e ex-guardião do Memorial Padre Antônio Vieira, relata que a mobilização ganhou força a partir de 2012.

Segundo Barreto, o movimento defendia não apenas o retorno do sacrário, mas também de outras peças relacionadas à história religiosa de Viçosa, como uma antiga imagem de Nossa Senhora da Assunção e outros objetos que atualmente estão fora do município. “Dentro de um mês, conseguimos mais de 10 mil assinaturas, principalmente de turistas do Piauí, que achavam inadmissível essas peças não estarem no altar-mor da igreja matriz”, relata.

A mobilização, segundo ele, acabou dando lugar ao diálogo institucional entre as dioceses de Sobral e Tianguá. A partir das tratativas, foi estabelecido o entendimento para o retorno do sacrário, desde que a peça fosse restaurada.

Barreto considera que a presença do objeto no templo tem importância não apenas religiosa, mas também histórica. “Quando a gente entra no altar, falta parte da nossa essência. Falta parte da nossa história, da nossa memória e do nosso sentimento de pertencimento”, afirma.

Sacrário faz parte de conjunto maior

O objeto que será transferido não é apenas uma pequena estrutura utilizada para guardar as espécies eucarísticas. Segundo José Luiz Lira, trata-se de um conjunto de madeira integrado ao antigo retábulo do altar.

A peça é atribuída ao contexto da produção artística desenvolvida na antiga missão jesuítica da Ibiapaba, mas Lira pondera que não há, no acervo consultado pelo museu, documento que comprove que todo o conjunto tenha sido produzido diretamente por indígenas.

Para o diretor, porém, a participação indígena na produção é considerada indiscutível dentro do contexto histórico da peça. “Ela é produto da ação indígena indiscutivelmente, ainda que eles não tenham feito o conjunto completo. Há o trabalho deles".

Restauração é o próximo passo

O projeto de restauração já estaria aprovado, segundo as informações apresentadas pelos entrevistados. A execução, entretanto, ainda depende dos encaminhamentos necessários junto ao Iphan. Inicialmente, foi marcada a devolução do sacrário para agosto deste ano. Não houve avanço sobre a restauração. E, agora, uma nova data é aguardada.

Após a restauração, a previsão é que o sacrário seja transportado para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção e reinstalado no espaço onde permaneceu originalmente.

A reportagem entrou em contato com Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para colher informações sobre a restauração do sacrário. Até o fechamento da matéria não houve resposta. O espaço segue em aberto.